História

A prática de exposição/rejeição de recém-nascidos perde-se nos tempos, sempre aliada ao fenómeno do infanticídio, e as suas causas diversificadas foram-se modificando, se bem que alguns motivos passam a assumir mais incidência consoante os contextos espácio-temporais. Concomitante, autoridades religiosas e civis da Europa medieval, tentaram encontrar formas de responder a esse problema social.

O problema dos expostos e a criação de casas específicas para o seu cuidado, é anterior à circular de 1783. Contudo é esta “circular de 24 de Março no reinado de D. Maria I”, que marca a implementação das casas da Roda por todo o país.

Em Torre de Moncorvo, embora já em 11 de Dezembro de 1781 existissem preocupações camarárias com estas crianças, é em 1783 que se iniciam as diligências em relação aos expostos do concelho.

A Casa da Roda dos Expostos situa-se na travessa da rua onde se encontra a Igreja da Misericórdia. A proximidade de ambas permite-nos estabelecer uma relação entre si, já que a Casa da Roda substituiu a Misericórdia no acolhimento dos expostos que muitas vezes, eram colocados à porta daquela Igreja.

O edifício é uma casa típica transmontana, com escadas exteriores em xisto que conduzem a um alpendre. Ao lado da porta, à esquerda, há uma pequena janela com a data de “1785”, onde estava instalado o mecanismo “giratório” aberto de um lado e colocado verticalmente, servindo para ali deixarem os desvalidos, sem contato direto com o exterior.

Desta forma, poder-se-á considerar aquele ano como de início da atividade da Casa da Roda neste espaço.

As rodas tinham formas próprias de funcionamento. A mãe ou a pessoa que ela indicasse, colocava a criança no recetáculo, rodava-o, e dava um sinal (pancadas leves na roda ou na porta) para avisar que estava um bebé na roda. A criança, por vezes, trazia um bilhete que era arquivado junto ao registo, ou transcrito para o registo de matrícula, com os seus dados pessoais mais básicos.

A rodeira recolhia a criança, dava-lhe os cuidados de higiene e alimentação e só depois se procedia ao seu registo. O registo era feito num impresso, onde se ficava a saber quando foi apresentada a matrícula; quais os sinais que apresentava; se trazia indicação do nome; se era ou não batizada; o nome que lhe era dado; a ama a quem era entregue e residência; e ainda o registo dos objetos que a acompanhavam em termos de enxoval; quando era “entregue à mãe”; se “terminou o tempo”; ou se “morreu na roda”.

No dia seguinte era visto pelo médico municipal. Caso estivesse bem de saúde podia ser entregue à ama, se estava doente permanecia na Roda.

Os expostos eram entregues a amas-de-leite (menos de um ano e meio) ou amas-secas (mais de um ano e meio) e aí permaneciam até aos 7 anos, mediante um vencimento pago pela Câmara Municipal.

Entre os 7 e os 12 anos fazia-se a integração social da criança exposta. A maior parte ia servir como criados. Outros eram entregues a oficiais de mestres como aprendizes.

Quando completavam a maioridade, ficavam livres da tutela do juiz de órfãos, e eram cidadãos sem qualquer inibição social, podendo ocupar cargos públicos.

A Casa da Roda de Torre de Moncorvo recebeu, durante alguns anos, crianças dos concelhos de Alfandega da Fé e Carrazeda de Ansiães.

O fim da Casa da Roda de Torre de Moncorvo inicia-se com a criação da Roda Hospício em Bragança em 1872, vindo a encerrar definitivamente em 1906.

Nos finais dos anos 90, a Câmara Municipal adquire o edifício para aí instalar o Posto de Turismo.

Em 1999, o Município de Torre de Moncorvo efetua um protocolo com o Instituto de Emprego e Formação Profissional que, através de uma candidatura ao Curso de Património Cultural, possibilitou a recuperação da Casa da Roda através de técnicas tradicionais, sendo o projeto da responsabilidade do GTL (Gabinete Técnico Local) integrado nos serviços do Município.

No ano de 2002 foi inaugurada como Posto de Turismo que aí funcionou até inícios de Julho de 2013.

A autarquia, em 2014, recupera a antiga Casa da Roda e aí instala um núcleo Museológico onde recria no espaço o ambiente da instituição “ Casa da Roda”, que no século XVIII recolhia crianças rejeitadas.

Para a realização deste projeto, o Município lançou uma campanha de angariação de utensílios usados na época. Esta foi essencial e o espólio doado contribuiu de sobremaneira para a concretização do Núcleo.

Em 19 de Abril de 2014, é inaugurado o Núcleo Museológico da Casa da Roda de Torre de Moncorvo.